15.Ago’05


Sem hesitar sento-me na mesa do fundo.
Em cima da mesa repousa o livro aguardando os seus primeiros minutos de atenção.
O empregado, de sotaque brasileiro, pergunta-me o que desejo.
- Um café, por favor. E um copo com água…
A luz entra pela fachada e invade a sala. Os castanhos contrastam com o brilho dos dourados.
O café está intragável…
Passo as mãos pelo livro e sinto já a ansia de o ler.
Leio a dedicatória: “Para os melhores professores que eu tive: os que me ensinaram a pensar por mim.”
No dia em que faço a inscrição na faculdade, esta dedicatória tem muito que se lhe diga.
Foi pelas ruelas de Lisboa que andei. Entre brasileiras, jardins da estrela e eléctricos…
Agarro a madrugada
Como se fosse uma criança,
Uma roseira entrelaçada,
Uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
Que manhã cedo ensaia a dança
De quem, por força da vontade,
De trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
Que no meu Tejo acendo cedo,
Vou por Lisboa, maré nua
Que desagua no Rossio.
Eu sou o homem da cidade
Que manhã cedo acorda e canta,
E, por amar a liberdade,
Com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
Da lua cheia de Lisboa
Até que a lua apaixonada
Cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
Tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
A maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada,
Colho a manhã como uma flor
Á beira mágoa desfolhada,
Um malmequer azul na cor,
O malmequer da liberdade
Que bem me quer como ninguém,
O malmequer desta cidade
Que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
Abriu a flor de Abril também,
A flor sem medo perfumada
Com o aroma que o mar tem,
Flor de Lisboa bem amada
Que mal me quis, que me quer bem.
(um dos fados que mais gosto…)
Quando eu ontem passei pelas estradas
Surgiu-me em frente aos pulos um pequeno
Olhos grandes e negros bem morenos
Curta jaqueta e calças remendadas.
“Donde é que vens, rapaz?” disse eu - Boiadas
Passam ao longe no horizonte ameno
E a aragem leve já beijando o feno,
Bebia o sol às águas abrasadas.
- Deus o salve, senhor! Agora eu venho
Do colégio e já que o venho tenho
A pedir-lhe um favor, se lhe aprouver…
E fitando-me, erecto e com vaidade:
- Como à festa não vou lá na cidade.
Diga a João de Deus que já sei ler!”
Guilherme de Santa-Rita
Ai
se eu pudesse não partir, eu ficava aqui contigo.
Se eu pudesse não querer descobrir.
Ai se eu pudesse não escolher, eu juro era este o meu abrigo.
Se eu pudesse não saber, que a alma…
Mas como pode a lua querer o céu?
Como pode o mar não querer o chão?
Como pode a vontade acalmar o desejo?
Como posso eu ficar?
(… se há um caminho tão grande a percorrer.)

Revejo as fotos e lembro os sorrisos.
Fica agora uma mista sensação de alegria e frustração. De saudade e alivio.
As saudades ficam guardadas em memórias, retratos, histórias.
Entre olhos inchados de sono ou de conjuntivite. Entre pó e explosões de feitio, eles sorriram! Sorriram de alegria, de felicidade, de satisfação.
Os frames contaram os segundos.
Agora é tempo de me dedicar às ervilhas.